Os Bastidores Dos 40 Anos De Playboy No Brasil 2


A Menina Azul


      "Entender o fenômeno Mendigata era fundamental para equilibrar as contas da Playboy até que a Editora Abril conseguisse negociar a multa de recisão de contrato com os gringos. Por que ela vendeu tão bem? A audiência dela no programa Pânico era muito menor que a novela da nossa babá capa de aniversário. A diferença se dava, aí sim, nas redes sociais. A Mendigata bonbava nos Facebooks da vida. Isso passou a ser um parâmetro importante na decisão de escolha das próximas capas. 

      A temporada de 2015 começou com os mesmos problemas do ano anterior. Leitores ariscos comprando menos, assinantes relutantes na hora de renovar por causa da crise econômica e anúcios cada vez mais raros. Precisávamos seguir reduzindo custos. Em junho recebi o telefonema de um produtor musical. José Pena tinha trabalhando na Abril Music, éramos contemporâneos, tínhamos vários amigos em comum. Ele contou que estava trabalhando com uma jovem cantora da Grande São Paulo. Nunca tinha ouvido nada de Tati Zaqui, muitos menos escutado seu "enorme" sucesso Parara tibum. Após uma breve pesquisa tive que retirar as aspas do adjetivo. O sucesso era enorme mesmo, Tati já andava com 10 milhões de visualizações no YouTube com uma paródia funk da célebre canção da Branca de Neve e os sete anões. Só então vi o clipe e quase desisti da ideia. Tati não era uma 'mulher de Playboy'. Corpo mignon, tatuagens, piercings, cabelo azul, ela estava mais para o mundo underground. Seus shows bombavam, mas na periferia das grandes cidades e no interior do Brasil. 

      Relsovi fazer um teste com a turma mais jovem da Abril. Quem conhece Tati Zaqui e o Parara tibum? A maioria absoluta não só já tinha visto ou dançado o funk, como demonstrou curiosidade em vê-la nua. Um primeiro problema: a versão rebolada e sensual da infantil música da Branca de Neve estava embargada pela justiça. A turma da Disney tinha proibido a veiculação do clipe por não gostar nem um pouquinho da sensualização da trilha infantil. O segundo problema nem parecia um problema: Tati era bissexual assumida, e não necessariamente o apetite  masculino dos leitores da Playboy diminuiria ― sem contar que poderíamos ganhar leitoras nessa edição. 

          Apostamos na maluquice. Chamamos um fotógrafo chegado em doideiras, o suíço Klaus Mitteldorf, que gosta de ousadias. O ensaio foi todo azulado e o título nem podia ser outro: 'Azul é a cor mais quente', nome de um filme francês que revela o amor entre duas meninas. O resultado do trabalho ficou, digamos, incomum. Fotos com cabelos e fundos azuis, ela sentada numa privada, com óculos de natação, teve de tudo. Tati seguiu não sendo uma mulher de Playboy, mas despertou o interesse geral. Ela era forte em Instagram, Facebook, e os fãns se mobilizaram. A revista se esgotou nas bancas menores, passou a sumir nas maiores. Recolhemos o pouco que havia restado e redistruímos no mês seguinte ― algo raríssimo.  Foi a maior venda do ano. A menina azul surpreendeu: chegamos perto das vendas da Mendigata." (Sérgio Xavier, é jornalista formado pela Universidade Federal Do Rio Grande do Sul. Comentarista da BandNews e do SportTV.)

O Recomeço

        "Em outubro de 2015 a Abril finalmente conseguiu negociar a devolução do título para os norte-americanos. Após quarenta anos publicando a Playboy, a Editora Abril saía do jogo com a última revista em dezembro. Um grupo de investidores do Paraná se acertou com a matriz em Los Angeles para editar a Playboy no Brasil já sabendo o tamanho do desafio. O fenômeno Tati Zaqui talvez seja um bom caminho para entender o futuro da revista. A Playboy continua uma marca importante no universo masculino. Um selo de qualidade. O coelho estampado ainda tem muita força. Mas o meio impresso perde para o digital, e, no digital, é uma batalha quase inglória tentar rentabilizar o conteúdo. Consome-se informação demais, compartilha-se para valer fotografias e vídeos, o fluxo é gigantesco. O problema é que ninguém quer parar na cancela do pedágio e pagar por algum conteúdo, eis a encrenca conceitual do mundo digital.

            A reinvenção da Playboy passará, necessariamente pela plataforma digital. Tati Zaqui é uma celebridade digital que atraiu audiência quando foi reconhecida e valorizada por uma marca relevante da 'mídia tradicional'. Após a Playboy, o cachê para shows de Tati Zaqui duplicou. Ela também ganhou com a capa. Para seguir por mais quarenta anos a Playboy terá que descobrir com rapidez outros fenômenos e, o mais complicado, entender como apresentar e cobrar pelo que descobriu. Como? Quem tiver a resposta que escreva para 10236 Charing Cross Road, Los Angeles, California, aos cuidados de Hugh Hefner. (Sérgio Xavier, diretor da Playboy brasileira  em 2013 - 2015)

Comentários

  1. Minha resposta: começar tudo de novo. Uma nova marca vai nascer...

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